sexta-feira, 27 de junho de 2008

Um documento sentimental-gastronômico

Por Lucas Lima
Imagens: Google
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Creio ter apenas uma lembrança ligada à gastronomia com minha avó paterna: as salsichas das visitas de domingo. Chegava, sentava no meu banco e era agraciado com os pedaços bem tostados. Não era nada demais, porém, até hoje, consigo lembrar do gosto delas.

Rachel de Queiroz [foto 2] foi mais sortuda do que eu. Em suas lembranças estão imagens e gostos saídos diretamente de um fogão a lenha de uma fazenda cravada no sertão cearense. Os ingredientes variados eram retirados daquela própria terra, que ainda tinha criação de uma infinidade de animais, como vaca, cabras, galinhas, patos...

A alimentação podia até ser um ato fisiológico, mas seu preparo era quase um grande cerimonial. Não adianta mudar a ordem dos ingredientes. O sertanejo que se preze reconhece e aponta os erros. E aí, sobra para a cozinheira!

Um pouco desse cerimonial de preparo da culinária sertaneja do Ceará está descrito no livro O Não Me Deixes: suas histórias e sua cozinha. O material não faz às vezes de um documento histórico sobre a origem de pratos, muito menos é um manual de receitas. Pode ser descrito, então, como uma declaração de amor da autora pela sua terra e pela gastronomia tradicional dessa, fincada no trinômio feijão-arroz-farinha, que é sempre acompanhado de algum tipo de carne.

Muito mais do que descrever como se dá o preparo do queijo, Rachel relembra como aquilo era feito, e fala dos que tinham a sorte de se deliciar com as lascas que sobravam no maquinário [da mesma forma que comer as raspas que ficam na panela do bolo ou lamber o recipiente no qual foi preparado algum doce]. A autora descreve também as cozinheiras que comandavam todo o cerimonial, por vezes quebrando a tradição para deixar certos pratos com um gosto mais desejado pela criançada.

Aqui, os animais são descritos na sua melhor forma para o abate, ato pelo qual as comandantes da fazenda preferiam não participar. Bastavam-lhes receber as carnes perfeitas para o preparo. Vaca e cabra, além disso, tinham o papel de oferecer o leite para as crianças que deixavam os peitos das mães.

Era tudo muito simples, deixando o destaque para os doces sertanejos. Doce de leite, de coco, de mamão verde com coco, de goiaba, de babana, bolos... "Fico assustada quando falo assim, enfaticamente, na 'cozinha do Não Me Deixes'. Porque não é nenhum repertório ilustre de pratos especialíssimos, 'divinos', 'maravilhosos'", escreve meio que em tom de desculpa Raquel de Queiroz. Ela acaba errando com tal afirmação. Mas a gente perdoa a sua simplicidade. Não teria como não ser assim, depois do agraciamento com do deleite de tais revelações gastronômicas – e sentimentais.

Um comentário:

SlowMMotion disse...

Adoro essa senhora de Quixadá (CE). Já tive a oportunidade de ler trechos deste livro gastronômico e é uma delícia mesmo. =)

Bjs,

Mari